
Gostava de ser mais ousada nas palavras e nos gestos;
se uma pessoa me fizer feliz eu faço mil pessoas
felizes; para sonhar precisamos de alimentar os sonhos
com pequenos gestos e segredos e palavras roubadas
ao silêncio; o nosso destino é morrer jovens; um pouco
de felicidade chega sempre na hora certa: o resto
é o incómodo da viagem; tantas palavras para te dizer
que estou sentada no sofá a tocar-me entre pernas
como um bela rapariga enamorada e sinto uma grande
emoção por já não me ver no espelho que tenho em casa
desde o dia em que ousei deixar de ser a puta da tua cara.
Tenho um livro para ler, uma paixão para alimentar,
um trabalho em mãos; o que é que uma poeta pode querer
mais da vida? respondem as tripas quando me sento
na sanita a fumar um cigarro: o teu problema é o tamanho
da barriga; tabaco a mais e planos de viagens na cabeça;
e o cabrão do anjo da guarda que fez de ti
uma mulher de família.
Gosto de ouvir a fêmea a gozar; o meu amor tem as mãos
firmes; roubei-lhe estes dois versos em quatro dias
de cama, mesa farta, sonhos azuis e muita conversa fiada;
fiquei sem forças e sem palavras quando pela última vez
me pediu para engolir o seu esperma e depois adormeceu
a beber as suas lágrimas; na despedida disse-me ainda
a chorar que era um cabrão que se entregava a qualquer
mulher de palavra fácil.


