
Foi preciso uma vida inteira para te encontrar
e de um dia para o outro desapareceste; tenho sono mas
não é para dormir é para te esquecer; há mais de um século
que me deito na mesma cama a pensar no dia de amanhã;
sei que um dia vou morrer nos braços de um homem,
na cama de um hospital, na estrada ou no meio da rua; foi
preciso uma vida inteira para aprender que de um dia para
outro, por muito ricos que sejamos, não saberemos onde
cair mortos e tudo o que precisamos é de um tecto seguro
e um homem ao nosso lado que se deixe foder
antes de adormecer.
Grande puta chamam aos gritos na minha aldeia à mulher
casada que foi com o camarada de trabalho fazer amor
para a maracha do rio tejo; ontem de manhã na praça
não se falava de outra coisa; a maioria são pessoas
tristes; homens com fome de cona e mulheres com
falta de caralho; camaradas da mesma terra que sempre
sonharam morrer de amores na maracha do tejo e morrem
de velhos sem matarem o desejo.
Da terra espero as melhores uvas para beber e dar a beber
do melhor vinho; não tenho casa nem família e nunca
trabalhei para não apanhar o vício; desde criança que
ando de mão dada com as grandes complicações da vida;
tudo o que aprendi durante mais de um século foi o ofício
de levar as mãos à cabeça para não perder o juízo.


