• Antologia
  • Biografia
  • Livros
  • Textos Críticos
  • Poemas Inéditos
  • Arquivo

    • Novembro 2023
    • Setembro 2021
    • Setembro 2020
  • Categorias

    • Poesia
  • Antologia
  • Biografia
  • Livros
  • Textos Críticos
  • Poemas Inéditos

Roubem, mas ai de vós se fordes apanhados*

16 de Setembro, 2020

Querida Anne Quetzal: como é que tu sabias que dentro da tua cabeça existiam estes 76 poemas do teu novo livro? Começo este texto, em forma de missiva, depois de ler os teus poemas mais uma vez e, no momento de uma dessas leituras, ter recordado uma outra muito antiga que conta o episódio da criança que, ao ver trabalhar Miguel Ângelo, na altura em que ele esculpia a cabeça de um cavalo, lhe perguntou como é que ele sabia que havia um cavalo dentro da pedra.


Foi certamente a nossa amizade que te fez pedires-me um texto para acompanhar o teu novo livro de poemas. Admiro-te desde os tempos de faculdade, quando líamos os clássicos e tu gostavas de encenar certas passagens dos livros para descansarmos a cabeça e exibirmos os nossos corpos jovens e amantes. Nunca te imaginei a escrever poesia; logo tu que és uma mulher de atirar pedras aos cães, deitar por terra as esperanças dos mais desgraçados que te assediam, de não deixares que te façam o ninho atrás da orelha, de nunca pedinchares palavras murmuradas por saberes que a vida vive-se aos gritos.


O que se passou contigo, minha querida amiga, para cederes à arte dos suicidas? Logo tu que todos os dias depois do trabalho chegavas a casa e começavas um novo romance. E o que é feito dos teus quadros a tinta da china? E dos teus desenhos eróticos, coloridos com o pó das estrelas, e das estradas, que nos levavam à beira daquele rio caudaloso em S. Francisco e, anos mais tarde, à beira do Sena, em Paris, onde preparámos o regresso a casa, à beira do rio Tejo, e ao território dos nossos cavalos e dos teus toiros bravos?


Não gosto de poetas choramingas e, nisso, tu enches as minhas medidas; a tua poesia é feita da pedra de onde saem cabeças de cavalos como nas obras de Miguel Ângelo. Onde é que foste inspirar-te para escreveres estes poemas se tu sempre amaste e viveste com políticos no activo, nunca perdeste um segundo da tua vida a esconder as mamas e, muito menos, escondias as cuecas quando trocavas as pernas naqueles gabinetes sempre cheios de homens com os queixos caídos nas mamas e nas coxas das mulheres?


Foste vítima de violência doméstica e nunca contaste a ninguém para não estragares a vida pública desses teus maridos importantes que te fodiam uma vez por mês quando tinham um fim de semana livre?
Foste às putas para aprenderes como se sobrevive a fazer sexo sem tesão e sem amor?
O tanto que eu não sei de ti minha querida irmã do coração; ou devia escrever: o que eu não sei das tuas paixões secretas, das tuas transgressões, dos teus monumentos de palavras, desse segredo da tua vida em que, tal como D. Quixote, investiste contra moinhos de vento julgando que eram tropas inimigas, e nunca mais deixaste os caminhos da aventura para te alimentares dos outros, ou não fosse a viagem a arte do encontro.


Contado que os teus leitores aceitem ser condescendentes comigo, arrisco escrever que em alguns dos poemas deste livro consegues dar continuidade a uma tradição poética inaugurada por Safo, de que tanto falamos nos nossos serões literários. Lembras-te da discussão que tivemos há trinta anos sobre Nicolau Tolentino, que escreveu a frase, que ficou famosa, de que “não há nada de novo, a não ser aquilo que foi esquecido” ? Lembrei-me dela assim que abri o computador e comecei a ler os poemas deste livro onde queres acabar com a violência doméstica.


Gostei do título. Está de acordo com os segredos que guardas do teu último marido que foi ministro/embaixador/latifundiário, que precisava bater-te e fazer sangue para conseguir foder-te e conquistar um orgasmo. Recrias com muita arte e engenho a poesia erótica e política que não vejo noutros poetas das últimas gerações. Reconheço que gostava que fosses ainda mais pornográfica. Fica o desafio para um próximo conjunto de poemas. Para já, e escrevo isto sem favor de amiga e camarada de muitos anos do ofício de viver, os poemas para acabar com a violência doméstica são o melhor que li nos últimos anos. Não precisas de sair à rua com o livro debaixo do braço para anunciares um dos melhores livros de poesia que li, folheei e adorei desde que me conheço amante de poemas e poetas.


Maria S. Rebello
Lisboa Abril de 2021


Nota: Maria S. Rebello é diplomata de carreira. Sempre usou o apelido de seu pai. Vive entre Azambuja e Lisboa depois de uma vida a viajar e a trabalhar. É dona e gestora de galeria de arte em Lisboa.

* Este titulo é roubado, sem aspas, da página 203 do livro “Quem disser o contrário é porque tem razão” de Mário de Carvalho, que explica a educação de um jovem espartano a quem, de propósito, se dava uma alimentação escassa.

Partilhar

Poesia

    • Um ensaio para o livro erótico de Anne Quetzal: “Poemas para acabar com a violência doméstica”
      Uma mulher pode amar com a máxima intensidade um batalhão de soldados do amor, mas vai haver sempre um soldado que tem a arma mais bela, a farda que mais cheira a roupa lavada. Quantos homens é que uma mulher […]
    • Sofia Copolla
      Foi preciso uma vida inteira para te encontrare de um dia para o outro desapareceste; tenho sono masnão é para dormir é para te esquecer; há mais de um séculoque me deito na mesma cama a pensar no dia de […]
    • Depois de publicar um livro
      Depois de publicar um livro o autor agradece ao editor, aos distribuidor, a todos os que ajudaram na revisão do texto, na elaboração da capa, no grafismo, enfim, um livro ainda é uma coisa tão complexa que passados tantos milhares […]
  • Subscreva a nossa newsletter!




© Copyright Terra Branca 2021