
Sinto as mãos a meio de uma viagem pelo teu corpo
enquanto a experiência vai avisando que desta vez não vou
chegar ao fim; és muito novo para te perderes de amores
por mim e velho demais para me fazeres mudar de vida;
há-de aparecer um livro, um filme, ou uma viagem
de sonho neste meio tempo em que haveremos de querer
morrer juntos para mais tarde já não nos querermos
ver nem mortos; é possível que eu não saiba amar-te
o suficiente para merecer o teu corpo de rei e a tua alma
de cabrão apaixonado que não dorme a meio do desejo;
sei o que é fazer amor com todas as palavras mas enquanto
não me deixares desenhar na tua pele o que sinto nos
momentos em que te escrevo a minha vida é lamber o chão
por onde passas e não deixas rasto.
Sou uma mulher do campo; tenho as mãos grandes
e os dedos grossos de amassar o pão para comer; sou uma
mulher de poucas palavras e de muito pouco juízo mas
se não falo rebento; se não faço loucuras enlouqueço; sou
também uma mulher da cidade; uma cidadã que gosta de se
perder nas ruas no meio das pessoas anónimas com cara
de pouca vergonha; sou uma mulher dos sete ofícios que
começou a escrever poesia depois de ter constituído família
e disso me orgulho; o resto, o que falta contar de mim, são
desculpas da mulher vulgar que também sou.


