
São as ideias que me marcam o rosto; reconheço
as pequenas ambições de um poema e atravesso as noites
com os olhos muito abertos a imitar a lâmpada
que me alumia; tenho a mania de sonhar que ainda não
perdi a virgindade; as palavras também adiam o amor
entre pernas à espera de melhores dias para a maternidade.
Não nascem da imaginação os dias de sol nos anos
das grandes colheitas de trigo; como é que tu queres
que eu diga que te amo num poema quando a nossa vida
é feita de palavras que nunca dão fruto.
Agarrou-se ao mastro do navio, quero dizer, à minha
cintura e gritou aos quatro ventos a coragem de ser
navegador; bebeu o vinho todo ao jantar porque queria
embebedar-se comigo ao lado; ficou mais forte para
me surpreender chorando por sentir um amor magoado;
por último assinou na toalha da mesa uma nódoa amarela
de gordura; em voz alta com palavras de grande firmeza
jurou que eu era a única mulher à sua altura.
Acordei de noite com a sensação do meu cabelo a crescer;
tive um sonho; era um desses dias em que não tens cara
e a barba cresce-me por ser a tua mulher.
Demoro-me nesta vida de poeta; tenho ainda
com que pagar este mau viver; guardo na boca
os rebuçados da criança feliz.
Era a tua mulher; só queria ser a tua mulher; pensava que
o melhor do mundo era deitar-me ao teu lado; era o meu
mundo a vida de um homem que sempre conheci deitado.


