
O pássaro que trago na cabeça canta de dia
e de noite e não me deixa sonhar; está outra vez sem penas
o passarinho que já conhece o céu e a terra mas nunca
aprendeu a voar.
A mulher tinha os dedos grossos de apontar o horizonte;
perdia-se muitas vezes nas margens do rio e com
os ombros desafiava os grandes pensamentos; subia
a montanha para falar a sós com os amigos que já não via
há muito tempo; às vezes distraia-se e deixava os amigos
a falarem sozinhos; ninguém sabia quais eram os seus
meios de sobrevivência; comia apenas o suficiente para
viver com saúde; punha as raízes ao sol e ainda lhes
matava a sede; por ser tão alta só olhavam e elogiavam
as suas pernas; por ser tão feminina tratavam-na pelo nome
do marido; sempre ocupada com as raízes rezava pela boa
sorte da folhagem.
A minha alma é a de uma mulher do campo; por isso
eu queria ter ossos grandes no peito como as mulheres
do campo e mãos de quem sabe podar uma árvore
ou desbastar um viveiro; esta vida de andar a fazer músculo
o dia inteiro, nunca ter o trabalho feito, não é para uma
mulher com alma de mulher do campo que vive para criar
os filhos, juntar dinheiro e dar ao marido amor verdadeiro;
a minha alma é a de uma mulher do campo; por isso
eu queria ser como as mulheres do campo que trabalham
e namoram ao sol e ao vento e quando abrem as pernas
é para passar o tempo.


